O mundo precisa de doçura e poesia mais do que nunca.
4 de março de 2026Sim, o mundo precisa de doçura. Não como fuga, mas como resistência silenciosa. Enquanto as máquinas aceleram as mentes humanas, uma xícara de café ainda exala perfume e desenha formas no ar. Enquanto algoritmos calculam desejos, alguém escreve um verso que não serve para nada — e exatamente por isso (nos) salva. E, enquanto escrevo, procurando o que falar, o que comunicar para vocês que leem de forma a ser instrutivo, real, mas reconfortante ao mesmo tempo, discorro sobre o meu pensamento rolando para frente e para trás, imagens e ideias que se mesclam com sentimentos de otimismo e paixão.
Em tempos de conflitos, polarizações, tecnologismo acelerado, promessas de IA consciente, substituição do ser humano como se todos fôssemos obsoletos neste planeta, com exceção dos bilionários e dos arquitetos do vale do silício. Planejam uma terra diferente, super clean, sem pessoas de diversas cores, sem seres humanos de diversas classes e saberes. Desejam uma Terra renderizada em computação gráfica, animais e árvores em SGI com arte produzida matematicamente pelos algoritmos bem treinados.
Então, torno a buscar e a pergunta antecede a minha afirmação: por que escrever algo poético, uma poesia, um poema, um haikai… para quem escrever um conto singelo, sutil, cheio de um mistério não aterrorizante, mas metafísico, dimensional… Para uma sociedade engolida pelo tempo, que não consegue mais parar alguns minutos para ler, para pensar, para apreciar, arte e literatura é luxo ou lixo no sentido de que “não nos serve mais”. Livros rasos, filmes rasos, séries mais rasas ainda, remakers, revisionismos rasos e anacrônicos, alguns até destrutivos da obra original.
A xícara de café à minha frente ainda perfuma o meu pensar… “Se eu não usasse óculos azuis, talvez não suportasse mais o mundo, a não ser os dourados por de sóis!” E o desenho que se forma e disforma ilude o meu contemplar, porque vejo reflexos azuis que me encantam. Permaneço ainda como quem hesita diante do sinal amarelo que mescla verde e vermelho – parar ou prosseguir num salto de aventura. Decido continuar e gotas de chuva caem do céu cinza-chumbo que se formou de repente – “Imersa nesta evidência, permaneço mergulhada em cristais de vida, recordando como respiro sem representações, sem esforço, sem pretensão…”
Vivemos a síndrome da culpa associada ao vitimismo com muito individualismo. Culpa das guerras, mortes e sofrimentos que não geramos, foram geradas por quem comanda a tal cúpula acima. Vivemos nos vitimizando pelo passado duro, sim, que nos trouxe aqui e que nos permitiu fazer reflexões e crescer, mas que hoje é demonizado e, às vezes, transformado em outra coisa para que não nos afete. E o individualismo, expressão vaidosa do egoísmo e orgulho, se exibe em selfies intermináveis de tudo, em exposições nas redes sociais, de influencers das inúmeras plataformas que se mostram de dentro para fora em tudo numa espécie de síndrome Truman tão contagiante quanto os vírus mutantes que transitam neste planeta.
Mas não era nada disso que eu queria escrever hoje, mas o que nos sufoca e oprime sai primeiro. Queria insistir, resistir, prosseguir na ideia de revelar o poético, para que o leitor pudesse sentir a suspensão do tempo, a presença que suprime até o presente. Só o poético consegue essa proeza, seja em forma de palavra, som ou matéria. E eu possuo uma quantidade razoável de exemplos que me é difícil escolher. Portanto, arriscarei uma escolha, não aleatória como uma roleta de cassino, mas uma escolha intuitiva sentida do interior que nenhuma IA nem máquina alguma terá. Paro um instante e observo. Ele é único – e, no entanto, todos. De repente, mergulhamos no eterno.
Para encerrar este esboço de crônica, é necessário ecoar o espaço midiático ou expectar revelações fantasmagóricas do século XXI? Acho que não, para não acabarmos mais uma vez como coelhos cegos pelos faróis dos carros, entre estupor e paralisia. É hora de brincar longe das luzes hipnóticas, esquecendo o mundo por alguns longos minutos, relaxar, criar e… reinventar o amor, em movimento constante como o mar, sempre reiniciado.
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